19 de agosto – Um ótimo dia para oxigenar as ideias ;)

Pessoa ‘não-binárie’ usa arte para expressar fluidez de gênero: ‘Uma coisa totalmente minha, totalmente bonita’

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Nesta terça-feira (28) é comemorado o dia do Orgulho LGBTQIA+. Arte ajudou Acauã a externar o que já era por dentro

Acauã, de 23 anos, é artista independente, natural de São José do Sabugi, no interior da Paraíba. O processo de identificação com a não-binariedade começou junto com a maquiagem artística, que começou por uma diversão. A maquiagem drag foi usada como teste de identidade artística, sem a necessidade de reproduzir um espectro feminino.

Sempre tinha essa necessidade de utilizar a [maquiagem] drag como um mecanismo de rompimento de gênero, de não conformismo”, relata Acauã, que começou a questionar de onde vinha essa necessidade de desconstruir esses gêneros binários na arte.

Nesta terça-feira, 28 de junho, é comemorado o Dia do Orgulho LGBTQIA+. A identidade não-binárie se encaixa no “+” da sigla. É uma expressão de quem não se encaixa nas definições de gênero, não se identifica totalmente com o “gênero de nascença” (relacionado ao órgão genital da criança) nem com outro gênero. A sigla usada é a NB, e o grupo luta pela linguagem neutra, justamente não por não se encaixar no feminino ou masculino, por isso usa o termo não-binárie.

Apesar de muitos acreditarem que a não-binariedade faz parte, na sigla, do “Q”, de queer, Selme Cabral, que faz parte da coordenação do Coletive Não-binárie da Paraíba, explica que o queer é uma realidade norte-americana.

Pessoas queer nos Estados Unidos desconstroem o padrão binário do masculino e feminino. Mas não nos contempla integralmente, porque, no contexto brasileiro, resgatamos a etnia dos povos originários, já que existiam várias expressões de gênero antes da colonização. Então a sigla NB traz esse contexto mais brasileiro“, explica Selme.

Acauã percebeu sua identidade de gênero a partir de experimentações na arte. — Foto: Foto: Acauã/Arquivo Pessoal

Acauã percebeu sua identidade com a ajuda de outras pessoas não-bináries que falaram de suas vivências. Foi um processo difícil, porque existem várias desconstruções na maneira que as pessoas são criadas.

As pessoas são atreladas a uma identidade de gênero baseada no nosso órgão genital e designada a seguir esteticamente o que é determinado para feminino e para masculino. Perceber que você é uma pessoa trans e tá num processo de rompimento é uma coisa muito louca de início, mas você vai começando a lidar, se percebendo, nascendo novamente, e é um processo de resiliência enorme”, relata.

O termo trans abrange qualquer pessoa que não se identifique com o gênero imposto (mulheres trans, homens trans, transmasculines, travestis). Selme Cabral explicou que nem todas as pessoas não-bináries se identificam como trans, mas que algumas se consideram trans não-bináries devido à transição de gênero pela qual passam.

A arte é um veículo importantíssimo para o reconhecimento da identidade de gênero e de outras coisas da vida de Acauã, que utiliza a arte para externalizar sentimentos. Com a maquiagem artística e com a performance, Mariposa entra em cena. É uma identidade, uma drag, onde Acauã tem a preocupação de exercer uma figura que não necessariamente tem um gênero ou é humana.

Acauã considera a arte é um veículo para o reconhecimento da identidade de gênero. — Foto: Foto: Acauã/Arquivo Pessoal

Esse aspecto monstruoso, não humano, é muito do que eu sinto a sociedade julgar as pessoas não-bináries, porque se elas não se identificam nem como homem nem como mulher. Eu consigo transcender tudo isso, todo esse sentimento negativo e criar uma coisa totalmente minha, totalmente bonita”, explica.

A representatividade que o tema vem ganhando na mídia é importante para a causa, mas, para Acauã, além do que é produzido apenas durante junho, mês do orgulho LGBT, é essencial que empresas contenham mecanismos que gerem empregos para pessoas trans, que são as mais invisibilizadas dentro desse processo.

Sendo fatídico, nós vivemos em um mundo capitalista, então a gente sabe que dinheiro é um fator importantíssimo para a saúde mental das pessoas. Então é o mínimo que essas empresas, além de gerar visibilidade, gerem empregos também”, reforça.

A sociedade tem avançado, e temáticas como a não-binariedade, existente em diversas culturas há vários anos, passaram a ter visibilidade. As pessoas agora lutam por seus direitos, entre eles, nomes sociais e a forma de tratamento para se referir a pessoas não-bináries.

Linguagem neutra

A língua portuguesa possui pronomes binários – ele e ela -, mas vem sendo cada vez mais debatido como se referir a uma pessoa que não se identifica nem como homem nem como mulher. O pronome neutro foi criado para exercer essa função democrática de se referir a outra pessoa respeitavelmente, empaticamente.

A princípio o pronome neutro foi criado com um ‘x’ no final das palavras ou um ‘@’, mas perceberam que na linguagem oral era mais difícil de dialogar e leitores de tela, utilizados por pessoas com deficiência visual, travavam ou liam coisas diferentes. Então foi feita uma reforma, passando a ser usado pronomes com um ‘e’ ou ‘u’ no final do pronome, sendo o elu/delu e o ile/dile.

Não somente para abranger pessoas não-bináries, a gente também abre uma discussão para como a língua é misógina e machista. Nossa sociedade existe nesse contexto, se tem um homem dentro do coletivo a gente tem que se referir no masculino, independente se no geral, na maioria são mulheres. O pronome neutro também serve para equilibrar e democratizar isso”, explica Acauã.

Fonte: G1.